05 agosto 2005

Como parar de fumar em apenas uma vida...*

O passo inicial deste ‘tratamento’ é, evidentemente, começar a fumar – afinal, alguém que nunca tenha fumado jamais irá pensar em parar de fumar... É importante lembrar que tal iniciativa deve dar-se por volta dos 13-14 anos, visto que nesta fase temos uma facilidade enorme de nos apropriarmos dos vícios de nossos amigos, ídolos e referenciais de modo geral... Sem contar, também, nossa ânsia pela experimentação do novo e pela provação de nossos limites... Depois disso vem o mais fácil: durante ½ ano fumar 1 cigarrinho na hora do intervalo da escola ou quando estiver matando aula; no próximo ½ ano fumar, além do cigarrinho já fumado, mais alguns cigarrinhos no final de semana ou em acampamentos... Depois disso é só adicionar mais alguns cigarrinhos diários, que irão aumentando de quantidade gradativamente e imperceptivelmente... Bem, quando você chegar a uma carteira de cigarros por dia e duas – ou mais – por final de semana você já está pronto para a fase seguinte: inúmeras tentativas frustradas para parar de fumar... Nessa fase você ficará durante uns 5 anos – no mínimo... Mas não se preocupe! Isso não é o pior... Tem ainda a tosse, o mau-hálito, a tosse, a ressaca aumentada, a tosse, sua mãe ‘enchendo o saco’, a tosse, aquela roupa que você adora e não sabe bem como queimou, a tosse, os dedos amarelando, a tosse, os não-fumantes, a tosse, as áreas para não-fumantes, a tosse, a grana que vira fumaça, as crises insuportáveis de tosse, a tosse insuportável... Enfim, tentar parar de fumar não é, REALMENTE, o pior de tudo... Mas, calma! Não se assuste (...ainda!)... Agora falta pouco... Você já fuma á uns dez anos e já não dorme (por causa da tosse) a mais de uma semana... Solução: consulta urgente e cara (sim! eu estou falando de grana...) com um especialista... Tãnãnãnã! O MEU pneumologista! Sim! Todo fumante conhece um pneumologista ou, então, tem preferência por algum deles... No dia da consulta leve sua mãe junto, especialmente se ela for do tipo superprotetora – caso ela não seja converse comigo antes e podemos agendar umas aulas para ela com minha mãe (PhD em superproteção)... O quadro está desenhado: sua mãe lhe recriminando, seu pneumologista falando sobre seus brônquios e inflamações, secreção, blábláblá... Na hora do exame médico ele descobre uma leve taquicardia devido à dificuldade que você tem para respirar, chiados e a tosse (claro!!!), que nem na hora da consulta consegue cessar... Depois disso mais uma ½ hora de papo contra o cigarro e suas atitudes perante ele, um discurso pela vida, uma demonstração de como você ainda é nova demais, e todo o blábláblá que qualquer fumante conhece de trás pra frente... Mas bem, quase no final da consulta ele lhe dá a prescrição, lhe aperta a mão e lhe deseja boa sorte – boa sorte porque de hoje em diante, segundo as palavras de seu pneumologista, você deve parar de fumar se quiser continuar a viver... Saindo do consultório você chega a uma farmácia e compra a primeira leva de medicamentos que servirão para curar a tosse e a inflamação... Com isso se vai o seu salário junto... E fica faltando ainda a segunda leva de medicamentos: aquela que vai te ajudar a parar de fumar e te levar a falência... Pois é, todo esse marketing sobre o SUS fornecendo tratamento para quem quiser (e principalmente, tiver que) parar de fumar era pura lorota! Depois de tudo isso, e pensando bem, você resolve tentar... Promete pra si mesmo nunca mais fumar... Mantém uma carteira de cigarros por perto para provar, ao vê-la, que não precisa dela; sai com seus amigos que fumam na sua frente, ao seu lado e atrás de ti também; vê pessoas fumando na TV, nas revistas e nos clipes dos caras mais legais do planeta; freqüenta lugares cheios de fumantes.... Mas você está lá, com uma idéia fixa na cabeça, sem tosse, pensando (ainda) se compra ou não o maldito adesivo de nicotina e os comprimidos que vão te deixar sem vontade de fumar.... E assim prossegue o tratamento por que, afinal, você só tem 23 anos e uma vida inteira tentando parar de fumar...

*Essa é minha auto-homenagem aos meus primeiros dias sem NICOTINA...
(Aline Cabral, 05 de agosto de 2005)